
AHKÓ-YAKÓ: O legado da gente estrela (2025-2026)
Em sua segunda participação na Casa de Criadores, o designer amazonense Sioduhi apresenta a coleção Ahkó-Yakó, o legado da gente estrela (Arcó-Iacó, como pronúncia), inspirada nas constelações presentes em cosmovisões indígenas do Alto Rio Negro, onde vive o seu povo Waikahna, também conhecido como Piratapuya ou Gente Peixe. O território é composto por 24 povos, com mais de 18 idiomas nativos e fica localizado no Noroeste Amazônico, numa região de fronteira entre Brasil, Colômbia e Venezuela.
Os movimentos das constelações regem os ritmos das águas, que são vistos por esses povos como marcadores para outros ciclos da natureza, porque influenciam nos momentos de maior ou menor intensidade das chuvas e de cheias nos rios. Este é um calendário cosmológico indígena que funciona como um sistema que orienta o manejo do território e que estimula na busca por novas soluções diante das mudanças climáticas.
As constelações são consideradas, ainda, como animais e objetos, e assumem formatos distintos, nomeados como Jararaca, Tatu, Jacundá, Camarão, Onça, conjunto de estrelas, Jirau de peixe, Cabo de Enxó, Lontra e Garça. Em conjunto, são conhecidos como Ñohkoa Diarã Mahsã (Gente Estrela Real), e fazem parte das narrativas sobre a concepção do mundo, revelando histórias singulares presentes na cosmovisão em que Sioduhi cresceu.
Por essa perspectiva, ao serem exiladas no cosmos e deixarem suas casas na terra, as gentes viventes lamentaram e choraram, criando assim, as chuvas. Inspiração essa, que levou o criativo a nomear sua nova coleção com as palavras Ahkó e Yakó que representam Água e Lágrima, respectivamente, na língua Tukano.
Trazer a memória da gente estrela à passarela é, para Sioduhi, um meio simbólico de fazer com que voltem a pisar na terra, na sua antiga casa. Em meio à urgência de discussões sobre os impactos das mudanças climáticas, ele acredita que o legado da floresta e das pessoas que vivem nela pode colaborar para sensibilizar a população brasileira, sobretudo, no que diz respeito à prática de manejo e readaptação nesses territórios milenares.
O designer segue com o uso de técnicas ancestrais por meio da Alta Artesania, inovando com a tecnologia ManioColor e o Tecido Emborrachado da Amazônia (TEA), e dessa vez, expandindo suas pesquisas para o desenvolvimento de materiais biodegradáveis por meio da impressão 3D.
A partir da parceria e patrocínio da Creaturae Tecnologia 3D, empresa também amazonense, o designer imprimiu peças tridimensionais que remetem às formas triangulares do quartzo — que fazem parte da joalheria tradicional do seu povo —, e que foram nomeadas como Momoarã (borboletas), além de figuras do peixe aracu aplicadas à algumas peças e de uma surpresa que fechará o desfile.
Como matéria-prima e técnicas, ele utiliza a fibra de tucum em peças estruturadas com ponto puçá e pequenos novelos feitos com o seu resíduo, além de plumagens de palha, tingimento natural com a folha da crajiru e bordados eletrônicos que ilustram os seres e objetos presentes nas constelações. O designer também texturiza tecidos manualmente para reproduzir os movimentos ondulantes das águas, conhecidos como banzeiros.
Para a concepção da cartela de cores, ele apresenta peças num cinza acetinado, em referência ao cosmos, bem como os tons tradicionais do céu, interpretados pelo branco, azul e rosa. E por fim, vêm as cores vermelho e lilás que representam a força no seu território, associadas ao urucum e ao crajiru, ambas consideradas plantas medicinais e sagradas.
Consequentemente, Ahkó-Yakó, o legado da gente estrela celebra os cinco anos da marca Sioduhi Studio e a possibilidade de criar moda brasileira a partir de uma visão indígena futurista amazônica. Assim, ele ocupa a moda como um caminho para o direito à memória, resultando num impacto socioeconômico real para as pessoas.



















































